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Estudantes se saem melhor quando não utilizam laptops em sala de aula

Texto traduzido da Scientific American
Por Cindy May
11 de julho de 2017


Na medida em que recém-formados no Ensino Médio se preparam para a faculdade, um item é certamente fundamental na maioria das listas de compras dos estudantes: um laptop. Laptops estão por todo o campus universitário e são vistos pela maioria dos estudantes como itens totalmente fundamentais, juntamente com sabão em pó, toalhas e café.

Sem sombra de dúvida, laptops podem melhorar a experiência universitária na medida em que facilitam o engajamento com o material disponível online, proporcionando acesso à ferramentas de pesquisa, facilitando a busca por estágios e até mesmo melhorando a comunicação com seus amigos e pais. Muitos estudantes também optam por trazer seus laptops para a sala de aula para que então possam tomar notas, ver os slides disponíveis e pesquisar material relacionado ao seu curso na internet. Esta prática, no fim das contas, pode se mostrar equivocada.

Uma nova pesquisa realizada por cientistas na Michigan State University sugere que laptops não melhoram a aprendizagem em sala de aula e, na verdade, os estudantes ficariam melhor se deixassem seus laptops no dormitório. Apesar do uso do computador durante as aulas ser capaz de criar a ilusão da melhora do engajamento com o conteúdo do curso, ele mais frequentemente reflete o engajamento com as mídias sociais, vídeos do Youtube, mensagens instantâneas, entre outros conteúdos não acadêmicos. Esta distração autoimposta tem seu preço, na medida em que os estudantes acabam perdendo até um terço do precioso (e custoso) tempo de aula “fora do ar”. E quanto maior o tempo online, maior tende a ser repercussão negativa nas notas.

Para entender como os alunos estão utilizando os computadores durante as aulas e o impacto que este comportamento tem no aprendizado, Susan Ravizza e colegas adotaram a seguinte abordagem: pediram para que estudantes voluntariamente fizessem login num servidor proxy no início de cada aula. Os participantes foram avisados que o seu uso da internet (incluindo os sites que visitavam) seria rastreado. Eles foram solicitados a ficar logados por pelo menos 15 períodos de aula, apesar de não serem obrigados a estar necessariamente conectados na internet. Os pesquisadores conseguiram rastrear o uso de internet e a performance acadêmica de 84 estudantes através do semestre.

Ravizza e colegas avaliaram o tempo que os estudantes passaram online, os sites que visitaram e o número de solicitações diferentes enviadas ao servidor em cada sessão. Eles também pediram aos estudantes que estimassem o tempo que acreditavam ter passado online durante as aulas e para que julgassem como o tempo online afetou seu aprendizado. Finalmente, os pesquisadores obtiveram medidas de inteligência (ACT – American College Testing*), performance nos exames finais e medidas de autorrelato sobre seu interesse e motivação.

Juntas, essas medidas indicaram importantes descobertas acerca do uso do computador na sala de aula. Primeiro, os participantes gastaram quase 40 minutos dos 100 minutos do período de aula usando a internet para fins não acadêmicos, incluindo interagir nas redes sociais, verificar e-mails, fazer compras, ler notícias, bate-papo, assistir vídeos e jogar. Este uso não acadêmico esteve negativamente associado com os resultados finais dos exames, de tal forma que estudantes com maior uso de internet demonstraram tendência a pontuar menos nos exames finais. Redes sociais foram os sites mais frequentemente visitados pelos estudantes e tiveram destaque, juntamente com sites de vídeos online, no que diz respeito ao efeito negativo sobre a performance acadêmica.

Em contraste com o grande uso para fins não acadêmicos, os estudantes pesquisados passaram menos de 5 minutos em média usando a internet para temáticas relacionadas às aulas (p. ex.: acessar o programa de estudos, revisar os slides ou materiais suplementares, pesquisar conteúdos relacionados à aula). Dado o tempo relativamente curto que os estudantes gastaram com o uso acadêmico da internet, não é surpreendente que este tipo de uso de internet não teve relação com a performance acadêmica. Assim, estudantes que trouxeram seus laptops para a aula para ver os materiais relacionados ao curso não passaram muito tempo fazendo isso e, portanto, não mostraram qualquer benefício por ter acesso a este tipo de material em sala de aula.

Por que os estudantes passam tanto tempo online durante a aula? A ideia de que passar tempo na internet está relacionado com a diminuição do aprendizado é bastante intuitiva, então Ravizza e colegas buscaram entender o motivo de os estudantes escolherem fazem isso. Uma possibilidade é que apesar de o uso da internet estar relacionado com baixa performance acadêmica, ele é muito mais um sintoma do que uma causa do problema, da mesma forma que baixa energia é um sintoma de obesidade e não uma causa de doença cardíaca. Se os estudantes se desligam da aula quando estão desinteressados ou entediados e então checam as redes sociais, é o tédio e não o uso da internet a causa dos maus resultados nos exames. De fato, em outros estudos, o uso do Facebook e da internet aumentou quando as pessoas se sentiam entediadas com uma tarefa contínua, e os estudantes relataram que eles enviavam mensagem de texto em sala de aula como um resultado de tédio.

Neste caso, entretanto, o tédio não é a resposta – ao menos não totalmente. Estudantes que relataram menor interesse na aula tendiam a ter escores menores nos exames, mas esta relação não considera a relação entre a internet e a performance nos exames. Resultados parecidos são encontrados em motivação e inteligência. Por exemplo, estudantes com escores altos no ACT versus estudantes com escores baixos tendiam igualmente a utilizar a internet durante a aula e eram afetados de maneira parecida em seus exames finais. Assim, apesar do interesse, motivação e inteligência contribuírem para a performance no curso, as análises demonstraram que o uso da internet influencia de forma negativa a performance nos exames mais do que se imaginava.

Talvez os estudantes estejam lamentavelmente desavisados sobre o seu uso de internet. Outra pesquisa mostra que as pessoas percebem tarefas agradáveis como sendo mais rápidas do que tarefas chatas, então é possível que o tempo gasto curtindo as redes sociais ou sites de vídeo seja percebido erroneamente como mais curto do que realmente é. Alinhados à esta ideia estão os dados de estudos que demonstram que os estudantes podem subestimar o tempo que realmente passam na internet. Surpreendentemente, entretanto, Ravizza e colegas descobriram que seus participantes eram razoavelmente precisos no que dizia respeito a estimar seu tempo de uso de internet. Eles também descobriram que os participantes tinham uma boa noção do quanto o seu uso de internet afetava sua performance acadêmica. Estudantes que classificaram seu uso de internet como tendo “nenhum efeito” no seu aprendizado tendiam a usar menos a internet e não demonstravam relação entre o uso da internet e sua performance nos exames; em contraste, aqueles que classificaram seu uso de internet como sendo um fator que atrapalhava os estudos tendiam a passar mais tempo nela, tinham menores escores nos exames e mostravam uma relação negativa entre o uso da internet e performance nos exames.

É possível que o uso da internet durante as aulas reflita um hábito ou até mesmo uma dificuldade em inibir um comportamento indesejado. O uso de redes sociais pode ser viciante para alguns e a quantidade de tempo que os estudantes passaram online neste estudo sugere que a sua ligação com a tecnologia era significativa. Além dos quase 40 minutos que os estudantes passavam online, eles também relatavam o uso dos telefones para passar mensagens de texto por mais 27 minutos.


Além da razão para o uso da internet, é claro que os estudantes não estão experimentando os tão bem falados benefícios do uso do laptop em sala de aula. Eles gastam um tempo mínimo acessando materiais suplementares do curso ou utilizando a internet para conteúdos relacionados à aula, e estas atividades não parecem aumentar a performance no curso. Apesar de os estudantes poderem utilizam a internet para baixar slides e escrever, as pesquisas relacionadas mostram que tomar notas a mão é mais eficaz do que digitar. Portanto, parece haver pouco benefício no uso de laptops em sala de aula, enquanto que claramente há desvantagem. Estudantes estão se distraindo por períodos significantes de tempo de aula utilizando laptops para visitar sites de redes sociais, de bate-papo, assistir vídeos e jogar jogos. Estas atividades prejudicam o processo de aprendizagem. Além disso, pesquisas relacionadas sugerem que pessoas que realizam diversas tarefas no laptop também distraem seus colegas, visto que os pares que têm visão direta a esses computadores também sofrem academicamente. Talvez seja hora de os estudantes considerarem estudar à moda antiga e colocarem mais um item na sua lista de compras: um bom e velho caderno de espiral.

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